Voltar para casa

Muitas vezes ao longo da jornada, temos a sensação de estarmos a deriva.

Um incômodo que lentamente corrói expectativas e traz uma sensação de não pertencimento, de um estranhamento com aquilo que nos cerca.

É normalmente neste momento que algo nos impulsiona a buscarmos respostas embora não saibamos muito bem se aquilo que estamos buscando será aquilo que vamos encontrar.

Há um impulso natural carregado de muitos pontos de interrogação que nosso eu interior busca responder e isto é muito mais forte do que a vontade de ficarmos no lugar de comodidade de nosso lugar comum.

E o que seria esta volta para casa?

Onde estaria este lugar “mágico” que nos traria a certeza de que finalmente a busca não foi em vão?

A jornada me mostrou que este lugar não está além de olhar para meu eu interior.

É através deste exercício de se voltar para dentro que pouco a pouco os pontos de interrogação da jornada vão se descortinando e uma sensação de paz começa a se instalar pacificando a mente turbulenta.

Hoje, o voltar para casa é o exercício de pacificamente olhar para o interior e perceber que tudo o que preciso já está aqui, neste presente chamado hoje, neste instante único que não pode mais se repetir e onde posso buscar fazer o meu melhor.

Esta é a grande dádiva deste presente chamado vida, a possibilidade de galgarmos estes infinitos espaços de evolução que sempre começará dentro de nós e que pode nesta grande cadeia de vida interconectada influenciar e beneficiar outros seres.

Solange Biolcatti – 22/04/22

SONHO DE UMA JUVENTUDE

A grande viagem desta existência começa quando despertamos para o auge de nossa juventude.

É um período mágico, onde sensações e emoções afloram a flor da pele.

É um período onde todo o sonho pode ser possível e o impossível é apenas uma palavra solta em nosso vocabulário.

Há uma efervecência e ebulição a cada átomo de nosso corpo, e somos compelidos a seguir desafiando padrões e sistemas.

Hoje, percebemos com espanto, que este momento único e tão particular da juventude está se desmanchando no ar.

Vemos jovens no seu ápice, porém, totalmente desconectados de buscarem efetivar seus sonhos e os projetar nesta perspectiva de futuro.

Preocupados com seus gadgets e totalmente absortos em buscar eternizar seus momentos “instagramáveis”, estão deixando de viver seus sonhos particulares imersos neste universo paralelo, vivendo a vida de outros, e comprando padrões que não os representam.

Espantosamente a juventude tornou-se robotizada deixando de ser a protagonista de seus próprios padrões, passando a comprar os sonhos projetados pela monetização do marketing de terceiros.

Onde este sonho juvenil tomou outro rumo?

Onde criar sua própria trajetória deixou de ser algo que motivasse uma geração e passou a ser algo que esta juventude deveria comprar como um pacote pronto?

Urge sabermos as respostas, pois, o que está em jogo é a trajetória de uma geração que acordou desprovida desta mola propulsora chamada sonho, chamada desejo, chamada mudança.

E isto, não se traduz em um corte novo de cabelo, ou as curtidas na sua rede social, ou a aquisição do último modelo de um telefone móvel.

A grande chave da juventude é justamente a imensa capacidade de romper padrões, de se organizar, de mudar sistemas políticos de participar ativamente da vida em sociedade e de infuenciar esta mesma sociedade, de preconizar novas ideias, de se mobilizar em pról de uma causa, de usar sua força criativa e ativa para recriar novos mundos e possibilidades.

O mundo precisa desta juventude e a juventude precisa despertar deste torpor para ascender a esta realidade da qual ela é protagonista e que sem ela a perspectiva de futuro perderá os tons coloridos desta natural efervecência para desabrochar em um futuro absolutamente previsível e enfadonho.

Solange Biolcatti – 16/11/21.

Lembranças

Lembranças no emaranhado do dia.

Vivências que foram se sucedendo e como em um filme .

Momentos que se eternizaram pela beleza e outros pela dor.

Ao final, a sensação de que a vida é uma dádiva mas também é finita.

Imaginamos que teremos todo o tempo do mundo e os anos se sucedem em uma velocidade que não conseguimos assimilar .

Quando por alguns instantes paramos dentro desta força estranha que apenas nos impulsiona a continuar , temos a sensação de que algo se perdeu.

Mas afinal o que poderia ter se perdido se somos os frutos de nossas escolhas?

Não é uma sensação de arrependimento, mas, uma sensação de que por vezes a luta contra o tempo é injusta. Vamos fazendo escolhas o tempo todo e sem perceber acordamos certo dia neste sonho das escolhas eternas que teremos por fazer e percebemos que pode não haver tanto tempo.

A vida é uma experiência única, sensível, modificadora.

É um grande quebra cabeças que no início temos a impressão que não saberemos escolher as peças corretas para seguir movendo o jogo, mas, ao longo desta aventura, munidos de um incrível senso de urgência e finitude vamos seguindo, na esperança de fechar o jogo com a peça mágica que vai descortinar toda a lógica do jogo.

E ao final qual a sensação : é fechar o jogo com a tal peça mágica, ou, a experiência única de ter percorrido cada passo da aventura, com erros, com acertos, com sustos, com desilusões, com ânimo, com desânimo, com fé, com a falta dela, com alegrias que se eternizam, com as lágrimas que parecem não cessar?

Entretanto, uma profunda sensação de gratidão de ter sido privilegiada com este presente, com este caminho percorrido , com as manhãs plenas de uma explosão única de vida que podemos perceber nos mínimos detalhes e que nos mostram que a última peça deste grande quebra cabeças é saber viver apenas o momento único deste agora.

Solange Biolcatti- 16/11/21

O que nos define

Pelo que anseia nosso coração?
Qual a essência deste ato de viver?
O que nos define?
Nestes tempos difíceis que atravessamos, onde tudo parece ser tão nebuloso
e sombrio, penso que as respostas mais simples podem nos definir.
De fato, penso que buscamos um sentido para uma existência da qual temos
plena consciência que é finita.
O sentido, verdadeiramente, não está atrelado aos grandes feitos ou ao
quanto pudemos amealhar em termos financeiros.
O sentido está em nos sentirmos úteis.
Utilidade está em nos sentirmos fazer parte de algo, em pertencer, em
podermos contribuir com algo de forma edificante.
Sentir que de alguma maneira nosso auxílio, seja por uma palavra amiga em
um momento de desespero, seja por um abraço quando alguém precisava,
seja por estar atento quando alguém precisava ser ouvido, seja estar em
silêncio ao lado de alguém que precisava apenas da sua presença física é o
que dá sentido e sabor a vida.
Apreciar as pequenas coisas e compartilhá-las de forma a tornar mais leve a
caminhada é também parte deste milagre chamado vida.
Por milênios e mais propriamente na idade moderna, fomos inundados com
a certeza de que os grandes feitos e as conquistas do ter definiriam o sentido
de felicidade e sucesso.
Talvez, este momento único pelo que atravessa a humanidade, que nos
deixou tanto tempo para voltarmos o olhar para dentro de nós e não para fora,
é o grande ensinamento sobre a finitude da vida e sobre a verdadeira essência
do ato de viver.
O que nos define?
Um olhar atento e compassivo, um sorriso sincero, uma mão amiga quando
precisamos, o carinho em olhar os pequenos detalhes, uma palavra
edificante.
Somos o movimento e o pulsar da vida e somos também o silêncio que explica mais do que mil palavras.

Ao final de tudo, somos as pegadas que tantos já trilharam e se apagaram pelo tempo e somos também aqueles que ainda virão.

Solange Biolcatti – 07/04/21

Sobre este momento

As palavras saem de forma complexa, pois, no fundo estou também dentro de
uma explosão.


O que estou vivendo pode e será a transformação de uma era.
Dentro das milhares de mudanças possíveis que nosso planeta Terra já viveu,
tivemos momentos difíceis, alguns deles quase impossíveis de mensurar.


Hoje, sinto que vivemos uma guerra, e dentro deste cenário não existem lados.
Não existe elencar as razões do porquê eu tenho razão e você não. Em uma
guerra, todos perdem, histórias são modificadas, vidas são interrompidas.
Hoje, enfrentamos um momento único na humanidade, onde o cenário de várias
nações já se modificou e o nosso também. Acumulamos perda, dor, sofrimento,
desespero, angústia.


O que é afinal a vida humana?
Para mim é um milagre.
Talvez um acaso do destino, porém, para estarmos aqui hoje vivos, foi necessária
a vida e a história de milhares de pessoas que sequer sei os nomes, mas, que
pertenceram a minha história de vida e de família.
Foi necessário que eles se cuidassem entre si, que cuidassem de seus filhos e netos
e assim sucessivamente, nesta cadeia de amor e vida.


Sou grata pois sou o fruto desta cadeia imensa de amor e proteção que me fizeram
ganhar este milagre chamado vida.
Precisamos aprender a honrar este milagre, pois quando cuidamos do outro,
cuidamos essencialmente de nós também.


Histórias embora não parecem que nos atingem, também dependem de nós para
continuar pois vivemos numa grande teia de energia e vida onde absolutamente
tudo está conectado.


Tive na infância a dor de não poder ter a companhia de meu irmão que por um
acidente morreu na tenra idade de 03 anos, e esta história interrompida afetou
não só a vida dele como a de todos que estiveram a sua volta. Pensei milhares de
vezes em como teria sido nosso crescimento junto, as viagens, os amigos em
comum, as comemorações, as brincadeiras, o riso solto, as lembranças alegres e
os aprendizados. Quando se interrompe uma história, se quebra uma cadeia de
vida.


Alguns poderão dizer, mas todos vamos morrer afinal.
Sim, claro que vamos, nada e fixo nem permanente. Mas, o que você faria se
tivesse certeza de que este seria seu último dia neste planeta azul chamado Terra?

Sairia deixando um rastro de destruição e dor ou teria um dia que valesse a pena
ser vivido, cheio de significado, perdão, amor?
No fim, tudo o que temos e este único dia de vida que ganhamos hoje. Então
precisamos viver este milagre de forma que repercuta neste cuidado e amor que
podemos espalhar aos outros e não só a nós mesmos.
Pense nisto, viva isto e faça a diferença porque isto importa.
Solange Biolcatti – 18/03/21

NOSSO CAMINHO DE CASA

O tempo passou.

Pouco a pouco fomos nos adaptando.

Novas realidades, algumas delas muito cruéis, fizeram com que o medo fosse maior do que a vontade.

Assim, a casa, estrutura concreta, passou a ser o nosso refúgio.

Dentro das quatro paredes, fomos descobrindo outras maneiras de interagir com o mundo a nossa volta.

Pouco a pouco, fomos descobrindo a nós mesmos e reconhecendo este micro universo a nossa volta.

Prestando atenção as pequenas coisas, as quais, antes sequer notávamos, fomos percebendo também a perfeição e a beleza.

Uma chuva que caia era um grande presente da natureza, um por do sol ou o nascer do sol era um espetáculo, um pequeno passarinho que insistisse no seu canto, era também a melodia da natureza explodindo através da janela.

O mundo tornou-se uma grande janela, e também uma janela aberta para nós mesmos.

Fomos prestando atenção as notícias e a morte que grassava lá fora, nos fez perceber o quanto tudo é tão efêmero.

Nosso olhar aprendeu a reconhecer e a agradecer a vida, a família, aos amigos, aos acontecimentos, as causas e condições que nos trouxeram até aqui.

Uma boa notícia realmente passou a ser comemorada, porque pouco a pouco, vimos valor naquilo que antes acreditávamos apenas ser a rotina.

A partir de março, o mundo descobriu-se em outros tons, em outras possibilidades de interação, em buscar valorizar um sorriso, uma palavra amiga, um brilho no olhar.

Assim, olhando para dentro de nós, pela força das circunstâncias, descobrimos o caminho de nossa casa: a casa interna que habita em nós e que sempre esteve lá.

Muitos aprendizados foram apreendidos nestes poucos meses que mudaram o cenário mundial.

Talvez o maior aprendizado, para aqueles que estiveram atentos, foi entender que tudo o que faz este presente vida fazer sentido, sempre esteve dentro de nós, em uma postura generosa de interagir com o mundo, com um olhar de compaixão sobre as coisas que nos cercam, com a paz que sempre viveu em nossos corações e que pulsa por poder se espalhar sobre este planeta.

Solange Biolcatti – 07/09/20.

DIAS SEM FIM

E desde então, a pressa cedeu lugar aos dias intermináveis.

Tudo que se vivia até então: correria, trânsito, stress, almoços rápidos, noites pouco dormidas desaparecera.

Acordamos num dia absolutamente tranquilo, onde o som da natureza se fazia mais forte.

Pássaros e seus gorjeios cadenciados emolduravam a paisagem de um silêncio quase absoluto, até o verde das árvores parecia resplandecer ao dourado do por do sol que quase todo final de tarde, insistia em se formar no céu.

Invariavelmente as noites nos mostravam pelas janelas enviesadas muito mais estrelas do que antes e uma lua bem mais iluminada.

Reclusos em nossas casas, sonhávamos com uma possível viagem futura, ou então, matávamos a saudade de outras já feitas e ficávamos horas a recordar as fotografias.

Já não sabíamos mais quando poderíamos concretizar estes pequenos devaneios, nem tampouco, como estaria o planeta, depois destes dias intermináveis.

Haviam também os dias de desconforto e de terror, onde as notícias acumuladas de contaminação e mortes inundavam nossas mentes e invariavelmente a noite, tínhamos dificuldades para dormir ansiando pelo amanhã.

Buscávamos preencher os dias com várias atividades ligadas a rotina do lar, e também, com outras leituras, estudos, reuniões e aulas, mas a realidade de tudo isto que ocorria com o aparato da tecnologia online só nos mostrava o quão estávamos afastados do mundo real, daquele mundo palpável que conhecíamos, onde pessoas se abraçavam, onde o direito de locomoção era isento de qualquer regra, onde amigos podiam se reunir, onde pessoas podiam viajar, onde um simples beijo não significava probabilidade de contaminação, onde visitar seus entes queridos era uma coisa corriqueira, onde andar pelas ruas ao sol, caminhar no parque ou ir ao cinema eram apenas coisas triviais.

Ainda vivíamos os dias sem fim com a resignação e a esperança que são tão características da raça humana, aquecendo nossos corações com a possibilidade do porvir.

Ainda acreditávamos que a humanidade poderia sair de todo este imbróglio com um olhar repleto de amor e compaixão.

Solange Biolcatti – 17/04/20.

Humanos

E assim, nos descobrimos fortes e insignificantes

E assim, no silêncio de nosso ser, subitamente o encontro com as nossas pequenas descobertas e a valorização daquilo que tantas vezes nos passou desapercebido

E subitamente o isolamento trouxe o silêncio, carregou consigo também o medo, mas, também aflorou a solidariedade.

Talvez seja esta a grande oportunidade de expandir a energia da compaixão posto que o mundo fica melhor quando nos enxergamos como iguais .

O planeta subitamente experimentou algo inusitado e sem fronteiras.

Fomos colocados a prova para que a tão falada compaixão pudesse despertar a humanidade para uma nova abordagem , para uma nova forma de nos relacionarmos com o nosso semelhante e com o planeta como um todo.

Espero que possamos cada um de nós olhar o nosso semelhante e tudo o que nos cerca com mais ternura e atravessarmos este momento como uma oportunidade de evolução.

Solange Biolcatti – 22/03/20.

 

DESAFIOS

E subitamente parece que o mundo que conhecemos acordou as avessas.

Uma avalanche de informações inundaram noticiários, jornais, blogs, redes sociais.

Tudo o que parecia sólido, lentamente foi se desmanchando no ar e tornou-se uma noite sem fim.

Não mais nos defrontávamos com as cenas de outrora, onde pessoas absortas em seus aparelhos eletrônicos se isolavam do convívio social ou de uma roda de conversa, víamos sim, pessoas isoladas em seus lares, em uma quarentena forçada para evitar a contaminação.

O isolamento forçado foi nos afastando das pessoas mais queridas: nossos pais e avós, posto que eram aqueles considerados vulneráveis.

O tão sonhado e ovacionado mundo virtual se concretizou, agora, o contato era obtido por vídeo chamadas, skype, whattsApp, telefone.

Pessoas isoladas em seus lares assistindo a evolução de algo para o qual não tinham um antídoto, um controle, sequer a condição financeira mais ou menos abastada poderia livrar-lhes de eventuais horas de fila em hospitais ou curas diferenciadas por algum tipo de tratamento vindo do exterior.

Subitamente, nos vimos iguais: impotentes!

Subitamente, nos vimos isolados em nossos lares e isolados do convívio social.

Subitamente, sair e expor-se tornou-se risco de vida.

Neste exato momento, o que consigo pensar é: o que devemos aprender com esta lição tão poderosa?

Quanto necessitaremos ainda retroceder, para entender que os verdadeiros milagres da existência se apresentam para nós em coisas simples que absolutamente desprezamos, tão absortos que nos encontramos.

Talvez a grande chave de mudança desta experiência é descobrir que somente com o olhar de compaixão conseguiremos sair deste cenário desolador para renascer em um mundo menos mesquinho.

Afinal, somos humanos, a grande diferença de nossa espécie está em termos o intelecto, mas também, em termos a sensibilidade.

Entendo que somente através deste exercício, deste olhar mais profundo, deste percebimento de que estamos todos acerca das mesmas circunstâncias é que despertaremos para um amanhã mais justo e equilibrado.

SOLANGE BIOLCATTI – 17/03/20.