Subitamente

E subitamente olhamos para nosso interior.

Com assombro nós nos descobrimos.

Foi com certeza um exercício árduo.

Em tempos de outrora, imaginamos que a terra árida habitava a paisagem devastada pelo cotidiano e pelo moedor de carne humana.

Em tempos de outrora, uma sensação do vazio que vem de algo que não conseguimos nominar.

Em tempo de outrora, o coração imaginava que não mais iria pulsar de alegria e que os olhos absortos ficariam perdidos na multidão.

Em tempos de outrora, ainda com os olhos marejados, não encontrávamos um sentido na existência.

No entanto, a vontade foi maior que a fuga do cotidiano.

A sanha de olhar mais profundamente, de buscar a resposta para os múltiplos pontos de interrogação existencial nos trouxeram até este ponto da jornada.

E deste olhar, as cortinas da existência foram se abrindo, e a luz que surgiu cegou nossas retinas já cansadas. Esta explosão de cor e de energia que surgiram, renovaram nossas forças, nossa disposição, nossa força interior, nossa forma de ver e conviver com o mundo a nossa volta.

Uma nova manhã cálida e sútil surgiu trazendo a primavera e todas as cores da vida nova.

E assim descobrimos que sempre há um tempo:

Tempo de renovar-se

Tempo de perdoar-se

Tempo de amar-se

Tempo de equilibrar-se

Tempo de sorrir para si

Tempo de se auto amar

Tempo de se encantar.

Tempo de entender, que o tempo sempre será o melhor remédio, que trará o entendimento e a luz que sempre esteve em nós.

Solange Biolcatti – 21/09/20.

NOSSO CAMINHO DE CASA

O tempo passou.

Pouco a pouco fomos nos adaptando.

Novas realidades, algumas delas muito cruéis, fizeram com que o medo fosse maior do que a vontade.

Assim, a casa, estrutura concreta, passou a ser o nosso refúgio.

Dentro das quatro paredes, fomos descobrindo outras maneiras de interagir com o mundo a nossa volta.

Pouco a pouco, fomos descobrindo a nós mesmos e reconhecendo este micro universo a nossa volta.

Prestando atenção as pequenas coisas, as quais, antes sequer notávamos, fomos percebendo também a perfeição e a beleza.

Uma chuva que caia era um grande presente da natureza, um por do sol ou o nascer do sol era um espetáculo, um pequeno passarinho que insistisse no seu canto, era também a melodia da natureza explodindo através da janela.

O mundo tornou-se uma grande janela, e também uma janela aberta para nós mesmos.

Fomos prestando atenção as notícias e a morte que grassava lá fora, nos fez perceber o quanto tudo é tão efêmero.

Nosso olhar aprendeu a reconhecer e a agradecer a vida, a família, aos amigos, aos acontecimentos, as causas e condições que nos trouxeram até aqui.

Uma boa notícia realmente passou a ser comemorada, porque pouco a pouco, vimos valor naquilo que antes acreditávamos apenas ser a rotina.

A partir de março, o mundo descobriu-se em outros tons, em outras possibilidades de interação, em buscar valorizar um sorriso, uma palavra amiga, um brilho no olhar.

Assim, olhando para dentro de nós, pela força das circunstâncias, descobrimos o caminho de nossa casa: a casa interna que habita em nós e que sempre esteve lá.

Muitos aprendizados foram apreendidos nestes poucos meses que mudaram o cenário mundial.

Talvez o maior aprendizado, para aqueles que estiveram atentos, foi entender que tudo o que faz este presente vida fazer sentido, sempre esteve dentro de nós, em uma postura generosa de interagir com o mundo, com um olhar de compaixão sobre as coisas que nos cercam, com a paz que sempre viveu em nossos corações e que pulsa por poder se espalhar sobre este planeta.

Solange Biolcatti – 07/09/20.

Qual o valor de uma vida humana?

Qual é o valor de uma vida humana ?

 

Ela teria mais valor se tivesse mais seguidores?

 

Ela teria mais valor se fosse famosa?

 

Ela teria mais valor se tivesse mais saldo em sua conta bancária?

 

Ela teria mais valor se morasse em um local com alto valor por metro quadrado ?

 

Ela teria mais valor se tivesse conhecido mais países ao longo do mundo ?

 

Ela teria mais valor se tivesse uma excelente formação ?

 

Ela teria mais valor se seus amigos fossem pessoas importantes?

 

Ela teria mais valor se o seu seguro saúde desse direito a hospitais de ponta?

 

Ela teria mais valor se sua beleza fosse considerada clássica e dentro dos padrões ?

 

Como classificar o valor de uma vida humana ?

 

O que sei é que cada sorriso, cada expressão, cada átimo de tempo na história individual de cada um e daqueles que formam seu círculo familiar é fundamental .

 

Não importa a classe social, a idade, o grau de escolaridade, os idiomas que domina, se perguntássemos a cada um que foi influenciado por aquela vida, teríamos a mesma resposta :

 

A vida humana é única, a história de uma pessoa conta a trajetória de uma cadeia de centenas de milhares de vidas que foram fundamentais para esta pessoa ter existido .

 

Somos esta vida em movimento .

 

Somos a vida pulsando no planeta , somos o novo e também somos a história .

 

Somos a luz maior que carregamos , e cada sorriso, cada coração que pulsa e planeja

a sua história é fundamental.

 

Que a humanidade desperte e perceba que cada um de nós está conectado e que cada um de nós ao final das contas depende de outros porque ninguém está separado de ninguém .

Esperança e Empatia é o que desejo para a humanidade a qual pertenço.

 

Solange Biolcatti – 15/06/20.

DIAS SEM FIM

E desde então, a pressa cedeu lugar aos dias intermináveis.

Tudo que se vivia até então: correria, trânsito, stress, almoços rápidos, noites pouco dormidas desaparecera.

Acordamos num dia absolutamente tranquilo, onde o som da natureza se fazia mais forte.

Pássaros e seus gorjeios cadenciados emolduravam a paisagem de um silêncio quase absoluto, até o verde das árvores parecia resplandecer ao dourado do por do sol que quase todo final de tarde, insistia em se formar no céu.

Invariavelmente as noites nos mostravam pelas janelas enviesadas muito mais estrelas do que antes e uma lua bem mais iluminada.

Reclusos em nossas casas, sonhávamos com uma possível viagem futura, ou então, matávamos a saudade de outras já feitas e ficávamos horas a recordar as fotografias.

Já não sabíamos mais quando poderíamos concretizar estes pequenos devaneios, nem tampouco, como estaria o planeta, depois destes dias intermináveis.

Haviam também os dias de desconforto e de terror, onde as notícias acumuladas de contaminação e mortes inundavam nossas mentes e invariavelmente a noite, tínhamos dificuldades para dormir ansiando pelo amanhã.

Buscávamos preencher os dias com várias atividades ligadas a rotina do lar, e também, com outras leituras, estudos, reuniões e aulas, mas a realidade de tudo isto que ocorria com o aparato da tecnologia online só nos mostrava o quão estávamos afastados do mundo real, daquele mundo palpável que conhecíamos, onde pessoas se abraçavam, onde o direito de locomoção era isento de qualquer regra, onde amigos podiam se reunir, onde pessoas podiam viajar, onde um simples beijo não significava probabilidade de contaminação, onde visitar seus entes queridos era uma coisa corriqueira, onde andar pelas ruas ao sol, caminhar no parque ou ir ao cinema eram apenas coisas triviais.

Ainda vivíamos os dias sem fim com a resignação e a esperança que são tão características da raça humana, aquecendo nossos corações com a possibilidade do porvir.

Ainda acreditávamos que a humanidade poderia sair de todo este imbróglio com um olhar repleto de amor e compaixão.

Solange Biolcatti – 17/04/20.

A Lua

Linda, estonteante,  ela despontou no céu onde também vi estrelas !

Tanto tempo se passou para que eu pudesse detidamente perceber aquele mesmo brilho que encantou toda a minha adolescência.

A  Lua brilhava em silêncio, assim como , silenciosa estava toda a cidade.

Imersos em nossa quarentena, tenho agora a grande chance de me reconectar com aquela parte de mim que durante longos anos se encantou com a explosão de vida.

Hoje, vi e senti aquela mesma Lua de outrora e uma sensação de felicidade tocou meu coração.

Fui invadida por aquele mesmo encantamento que me fazia observar o céu por horas.

Percebi que esta mesma explosão de vida e natureza sempre estiveram ali, ao meu lado, aguardando o momento oportuno de  minha atenção .

Me senti agradecida por estar aqui, por perceber que tudo está conectado , que pertencemos a este universo e que somos um só.

Possa esta energia de amor universal se multiplicar e a compaixão se espalhar e assim a humanidade despertar para o verdadeiro sentido da vida.

Solange Biolcatti – 05/04/20.

 

 

 

 

 

Humanos

E assim, nos descobrimos fortes e insignificantes

E assim, no silêncio de nosso ser, subitamente o encontro com as nossas pequenas descobertas e a valorização daquilo que tantas vezes nos passou desapercebido

E subitamente o isolamento trouxe o silêncio, carregou consigo também o medo, mas, também aflorou a solidariedade.

Talvez seja esta a grande oportunidade de expandir a energia da compaixão posto que o mundo fica melhor quando nos enxergamos como iguais .

O planeta subitamente experimentou algo inusitado e sem fronteiras.

Fomos colocados a prova para que a tão falada compaixão pudesse despertar a humanidade para uma nova abordagem , para uma nova forma de nos relacionarmos com o nosso semelhante e com o planeta como um todo.

Espero que possamos cada um de nós olhar o nosso semelhante e tudo o que nos cerca com mais ternura e atravessarmos este momento como uma oportunidade de evolução.

Solange Biolcatti – 22/03/20.

 

DESAFIOS

E subitamente parece que o mundo que conhecemos acordou as avessas.

Uma avalanche de informações inundaram noticiários, jornais, blogs, redes sociais.

Tudo o que parecia sólido, lentamente foi se desmanchando no ar e tornou-se uma noite sem fim.

Não mais nos defrontávamos com as cenas de outrora, onde pessoas absortas em seus aparelhos eletrônicos se isolavam do convívio social ou de uma roda de conversa, víamos sim, pessoas isoladas em seus lares, em uma quarentena forçada para evitar a contaminação.

O isolamento forçado foi nos afastando das pessoas mais queridas: nossos pais e avós, posto que eram aqueles considerados vulneráveis.

O tão sonhado e ovacionado mundo virtual se concretizou, agora, o contato era obtido por vídeo chamadas, skype, whattsApp, telefone.

Pessoas isoladas em seus lares assistindo a evolução de algo para o qual não tinham um antídoto, um controle, sequer a condição financeira mais ou menos abastada poderia livrar-lhes de eventuais horas de fila em hospitais ou curas diferenciadas por algum tipo de tratamento vindo do exterior.

Subitamente, nos vimos iguais: impotentes!

Subitamente, nos vimos isolados em nossos lares e isolados do convívio social.

Subitamente, sair e expor-se tornou-se risco de vida.

Neste exato momento, o que consigo pensar é: o que devemos aprender com esta lição tão poderosa?

Quanto necessitaremos ainda retroceder, para entender que os verdadeiros milagres da existência se apresentam para nós em coisas simples que absolutamente desprezamos, tão absortos que nos encontramos.

Talvez a grande chave de mudança desta experiência é descobrir que somente com o olhar de compaixão conseguiremos sair deste cenário desolador para renascer em um mundo menos mesquinho.

Afinal, somos humanos, a grande diferença de nossa espécie está em termos o intelecto, mas também, em termos a sensibilidade.

Entendo que somente através deste exercício, deste olhar mais profundo, deste percebimento de que estamos todos acerca das mesmas circunstâncias é que despertaremos para um amanhã mais justo e equilibrado.

SOLANGE BIOLCATTI – 17/03/20.

Fugaz

Neste sopro entre uma ou outra experiência transitória nos encontramos.

E assim, nus de sentimentos e sensações planamos como que absortos no vazio.

Divagamos por entre a expectativa do que poderia ter sido e pela realidade cruel daquilo que de fato é o nosso dia a dia.

Assim, no mergulho das sensações entre o espanto e o desespero, buscamos como náufragos o vislumbre de um porto seguro.

Assim, buscar o lenitivo, algo que não nos obrigue a refletir para buscar fugir da rotina massacrante parece ser um caminho glorioso.

Ávidos pela fuga da rotina, encontramos aquilo que seria a representação da felicidade em festas sem alegria, em vídeos sem sentido, em piadas sem graça, em sorrisos sem vontade, em fotos bem montadas para serem ´postadas, em declarações sem amor, uma busca frenética pelo não pensar, pelo não encontrar-se, pelo que nos parece mais fácil e fugaz.

Assim, pode fluir o tempo, transcorrer os rápidos anos da juventude, da própria vida que rapidamente se esvai.

Muitos dirão que talvez seja este mesmo o significado de existir: um acaso do destino sem sentido certo ou glorioso.

Porém, se por alguns minutos pudéssemos parar, refletir, interiorizar, também descobriríamos que há algo muito maior em nós do que a simples fuga daquilo que nos parece vazio e sem sentido.

Sentiríamos uma sensação nova deste auto encontro, uma sensação de que tudo o que buscávamos fora estava lá o tempo todo esperando por nós.

O despertar é mágico e simples, basta abrir os olhos da sua mente.

A grande festa fantástica da vida que tanto buscamos esteve o tempo todo ao nosso dispor, chama-se : auto conhecimento, este com certeza é o grande sentido desta experiência preciosa chamada vida.

Solange Biolcatti 29/12/19

UM POUCO DE MIM

Quanto de mim espera e quanto já desistiu,

Quanto de mim esqueceu de buscar e quanto ainda anseia pela volta do espanto,

Quanto de mim olha as estrelas e quanto vê apenas a escuridão de uma noite sem fim,

Quanto de mim se abre ao novo e a descoberta e quanto permanece amedrontada embaixo de camadas de outros ” eus” disfarçando o medo,

Quanto de mim sente a brisa, pulsa pelo belo, cria universos em segundos, espia atenta e com espanto uma nova descoberta desta vida bela e preciosa e quanto de forma automatizada e estática repete os dias, os hábitos, o desconforto, o irremediável.

Sou a manhã de sol e explosão e sou também o dia nublado e enfadonho.

Me descubro, pouco a pouco, despindo as camadas da existência que as nuvens do medo e do cotidiano foram formando sutilmente.

Ao mesmo tempo em que me espanto com várias descobertas, me encanto com este ato mágico de me permitir estar atenta e com a sensibilidade que a vida me proporcionou ao longo da jornada.

Sou grata por estar aqui, por ter tido esta jornada com seus momentos de sol e de dias nublados, mas, que me tornaram a pessoa que sou e a pessoa que busca a sua melhor versão.

Ser a melhor versão, talvez seja, ser um ser a caminho do encontro consigo própria e despida de todas as capas da existência neste encontro com a simplicidade da vida., assim como deve ser.

Solange Biolcatti – 30/10/19