Qual será este medo que nos paralisa quando nos defrontamos com algo que nos foge ao controle?
Embora por vezes descrentes, esta matéria chamada corpo há de acompanhar aquilo que nos é mais caro: esta luz infinita que nos projetou neste mundo.
Somos uma grande massa estelar de luzes eternas que se completam.
Somos os não nascidos e não mortos.
Somos as incontáveis gerações que nos antecederam.
E somos vivos pela eternidade.
Não apenas nas obras concretas que a humanidade insiste em perpetuar, buscando eternizar-se através de construções, fotos, vídeos e tudo aquilo que tenta materializar sua própria passagem.
A realidade talvez seja outra.
A parte luminosa e iluminada de nossa consciência cria este multiverso que habitamos.
Então, o que é, de fato, a morte?
Talvez uma imagem construída acerca de algo que não existe em sua realidade mais profunda.
Acreditamos que estamos apartados daqueles que amamos.
Porém, como já nos disse um grande monge budista, é possível ver, em uma simples folha de papel, a semente que gerou a árvore, a chuva que permitiu seu crescimento, o lenhador, o corte da madeira.
Tudo está interligado.
Então aqueles que aparentemente “se foram” permanecem em cada ato nosso perpetuado, no som do vento, no brilho das estrelas que iluminam o céu e nesta consciência coletiva que nos fez chegar até aqui.
Somos este todo luminoso e iluminado que insiste em acreditar que está isolado neste sonho chamado vida.
Neste momento tão singular que vivo hoje, consigo sentir a dimensão deste todo absoluto em cada dia desta experiência que tenta me provar que ficarei distante daqueles que amo, quando, na verdade, nunca estive separada.
Nem dos seres que me antecederam e jamais conheci.
Nem daqueles que amei e aparentemente partiram.
A grande verdade é que, em cada célula do meu ser, consigo sentir as milhares de gerações que estiveram antes de mim e as milhares outras que surgirão após minha partida.
Viver talvez seja ter a oportunidade de despertar deste sonho dentro do sonho.
E compreender que tudo sempre teve o seu lugar.
Que tudo faz sentido.
E que, na grande roda do samsara, em algum momento, iremos acordar.
Solange Biolcatti
28/05/2026