DIAS SEM FIM

E desde então, a pressa cedeu lugar aos dias intermináveis.

Tudo que se vivia até então: correria, trânsito, stress, almoços rápidos, noites pouco dormidas desaparecera.

Acordamos num dia absolutamente tranquilo, onde o som da natureza se fazia mais forte.

Pássaros e seus gorjeios cadenciados emolduravam a paisagem de um silêncio quase absoluto, até o verde das árvores parecia resplandecer ao dourado do por do sol que quase todo final de tarde, insistia em se formar no céu.

Invariavelmente as noites nos mostravam pelas janelas enviesadas muito mais estrelas do que antes e uma lua bem mais iluminada.

Reclusos em nossas casas, sonhávamos com uma possível viagem futura, ou então, matávamos a saudade de outras já feitas e ficávamos horas a recordar as fotografias.

Já não sabíamos mais quando poderíamos concretizar estes pequenos devaneios, nem tampouco, como estaria o planeta, depois destes dias intermináveis.

Haviam também os dias de desconforto e de terror, onde as notícias acumuladas de contaminação e mortes inundavam nossas mentes e invariavelmente a noite, tínhamos dificuldades para dormir ansiando pelo amanhã.

Buscávamos preencher os dias com várias atividades ligadas a rotina do lar, e também, com outras leituras, estudos, reuniões e aulas, mas a realidade de tudo isto que ocorria com o aparato da tecnologia online só nos mostrava o quão estávamos afastados do mundo real, daquele mundo palpável que conhecíamos, onde pessoas se abraçavam, onde o direito de locomoção era isento de qualquer regra, onde amigos podiam se reunir, onde pessoas podiam viajar, onde um simples beijo não significava probabilidade de contaminação, onde visitar seus entes queridos era uma coisa corriqueira, onde andar pelas ruas ao sol, caminhar no parque ou ir ao cinema eram apenas coisas triviais.

Ainda vivíamos os dias sem fim com a resignação e a esperança que são tão características da raça humana, aquecendo nossos corações com a possibilidade do porvir.

Ainda acreditávamos que a humanidade poderia sair de todo este imbróglio com um olhar repleto de amor e compaixão.

Solange Biolcatti – 17/04/20.

A Lua

Linda, estonteante,  ela despontou no céu onde também vi estrelas !

Tanto tempo se passou para que eu pudesse detidamente perceber aquele mesmo brilho que encantou toda a minha adolescência.

A  Lua brilhava em silêncio, assim como , silenciosa estava toda a cidade.

Imersos em nossa quarentena, tenho agora a grande chance de me reconectar com aquela parte de mim que durante longos anos se encantou com a explosão de vida.

Hoje, vi e senti aquela mesma Lua de outrora e uma sensação de felicidade tocou meu coração.

Fui invadida por aquele mesmo encantamento que me fazia observar o céu por horas.

Percebi que esta mesma explosão de vida e natureza sempre estiveram ali, ao meu lado, aguardando o momento oportuno de  minha atenção .

Me senti agradecida por estar aqui, por perceber que tudo está conectado , que pertencemos a este universo e que somos um só.

Possa esta energia de amor universal se multiplicar e a compaixão se espalhar e assim a humanidade despertar para o verdadeiro sentido da vida.

Solange Biolcatti – 05/04/20.

 

 

 

 

 

EVOLUÇÃO

Somos as sementes que se espalham mesmo sem perceber.

Ao longo da caminhada, por milhares de séculos, o impulso criador se manifestou, a chama da existência e da renovação, permitiram que nossa espécie se espalhasse e que construísse isso a que hoje chamamos de mundo.

Somos muitos, cada qual em seus espaços geográficos, com seus hábitos, seus idiomas, sua história, seus afazeres, porém, quando vistos sob o prisma de um sentido maior e único, vemos que o que nos une a todos é este liame de buscar este algo mais, de sentir-se útil, de poder fazer a diferença mesmo que seja para um único ser.

Somos movidos por esta força pulsante que há em nós e que está sempre a nossa disposição, mesmo naqueles momentos em que pensamos que nada mais nos restará.

Somos este todo iluminado, porque de fato, não somos o ser único e isolado que se vê como auto suficiente, como prepotente, como diretor do espetáculo da vida.

Somos este todo iluminado, porque estamos todos inseridos na teia da existência e juntos, movidos pelos mesmos ideais, nos tornamos únicos, nos tornamos a força propulsora capaz de alcançar os mais inimagináveis objetivos.

É este o sentido maior desta experiência chamada vida.

É este o caminho do encontro, quando nos entendemos únicos, mas nos enxergamos como a fina teia da rede maior chamada vida iluminada.

Que possamos todos e cada um de nós, vivenciarmos passo a passo este despertar e entender o sentido deste presente chamado vida.

Solange Biolcatti – 25/11/2018 

Tempo

Oca a humanidade projeta o olhar buscando algo.

Ocos os homens mantém-se supostamente engajados, banalizados em seus projetos de vida, em seus escritórios organizados, em suas reuniões pautadas por gráficos de desempenho, em suas rotinas de sufocante angústia.

Buscam, quem sabe, dentro  das terras ressequidas , um oásis onde matar a sede de vida.

Olham-se, quem sabe almejando um insight, um lampejo de vida ainda não consumida.

Mas, a espera é infinita, e a vida, consome-se neste mar de anos passados no eterno dilema de quem sabe um dia.

Assim marcham os milhões em suas rotinas, criando mundos ideais em pequenos hiatos de tempo, onde o sonho é possível, mas como tudo é efêmero, passa.

E assim passam-se os anos e subitamente olhamos para a terra prometida que um dia vislumbramos e vemos que ela já não brilha.

Vemos um cenário retorcido de coisas puídas e empoeiradas pela ação do implacável tempo.

Tempo, o senhor absoluto sobre todos , que desdenha dos pequenos sonhos humanos e vez por outra concede um vislumbre do infinito.

Pobre sonho humano, imaginamo-nos heróis e nos descobrimos pequenos e vãos.

Pobre do homem que acredita ser possível vencer as garras do tempo e encontrar-se pleno, pois a vida é apenas poeira no tempo.

 

 

28/02/17