OLGA

Começar um texto repleto de emoção é uma das coisas mais difíceis de fazer, pois, a emoção embaralha a razão e turva as palavras.

Busquei então, começar este texto, pois há uma necessidade básica de expor este turbilhão de emoção que agora habita em meu peito.

Busquei a origem do nome daquela que viria a conhecer anos depois na minha tenra juventude, Olga, e encontrei na etimologia da palavra, a exata dimensão do que representou esta mulher:

Consagrada a Deus, carrega consigo as qualidades de uma mulher repleta de virtudes tais como dignidade, respeito, bondade e beleza.

Seus pais, souberam antecipadamente, na data de seu nascimento, o que viria a se transformar em sua fase adulta, uma mulher ímpar, um caráter único, uma fé inabalável, uma doçura que a tudo envolvia e encantava.

Os anos em que desfrutei de sua companhia, só demonstraram um ser humano no caminho da auto realização, pois, o que vi ao longo dos anos que pude compartilhar de sua companhia, foi uma pessoa repleta de amor incondicional e de compaixão, qualidades essenciais , quando conseguimos ultrapassar as fronteiras da materialidade da existência e adentrar no âmago do que é efetivamente a experiência de viver.

Sem perceber, sua forma de ser tocou o meu ser e as sementes tinham sido plantadas em meu coração.

Hoje olho e vejo um lindo jardim florido.

Vejo os pássaros coloridos e seus cantos mágicos.

Vejo seus filhos e netos.

Vejo como tudo o que ajudou a construir ficou tão belo.

E neste cenário de harmonia e luz, vejo seu sorriso que por tantas vezes me encantou.

Hoje sei que está plena e nos vê de uma forma única, livre no paraíso de evolução onde se encontra.

Hoje, estamos tristes, mas, tenho certeza de que o Universo ficou feliz em tê-la por perto espalhando este amor e este sorriso que nunca mais sairá de nossos corações.

Obrigada por tudo, minha sogra, minha amiga.

 

05/06/17

Viagem

A distância me fez mergulhar no verde denso dos teus olhos.

Este mar de aventuras e deleites.

Esta profundeza de mistérios e sentidos.

Esta corrente de sensações que ao longo do tempo, como que por magia, foram se renovando e preenchendo de frescor as terras sempre férteis de meu coração.

Viver a seu lado, é renovar o sentido de plenitude.

Sentir a brisa cálida do desejo que sempre se faz presente.

É sair das mesmices do cotidiano.

É perceber que podemos sempre ser mais e melhores.

É aprender com seu jeito de ser.

É se encantar com seus pequenos gestos e grandes virtudes.

É sentir seu calor, brasa incandescente, mesmo não estando a seu lado.

É fechar os olhos e vislumbrar seu sorriso luminoso, como no primeiro dia em que meus olhos cuzaram com os teus.

É ainda, acredite, sentir meus olhos marejados, equanto escrevo estas parcas linhas.

Palavras são instrumentos para tecermos os fios dos sentimentos e descobrir novas texturas.

E nesta descoberta, sinto-me novamente a menina que te descobre e sorri, e se encanta , e se descobre novamente apaixonada e sendo feliz.

10/02/11

DISTÂNCIA, RIO CAUDALOSO

A distância é um rio caudaloso, perigoso, denso, tenso, que cria abismos em suas profundezas, abismos por vezes intransponíveis.

Contrário senso, não é remédio que corrige, mas por vezes, o veneno lento que corrói o que ainda guardmos de bom.

Esta angústia tem seu tempo de maturação, como tudo em nossas vidas, pois exatamente tudo está em constante transformação.

Parafraseando Drummond, posto que de tudo fica um pouco, ao final desta longa jornada, após esta noite interminável, o que restará? Um botão ou um rato?

2011

Solidão

Havia esquecido aquela velha sensação .Minha boca sentiu o amargo de outrora e então eu tive medo.

Medo, velho conhecido que por tantas vezes jogou-me no vazio. Vazio que novamente experimento ante a agonia de estar sozinha em meio à multidão.

Neste segundo da existência, tudo se resume a mergulhar fundo neste vácuo e sentir o frio percorrendo as entranhas.

Este segundo transforma a alma e turba qualquer expectativa .

Neste vazio me vejo oca e negligente busco no ocaso algo que sublime a escuridão .

Mergulho cada vez mais fundo até sentir que as forças não suportam e tocando o fundo da existência vejo que posso novamente submergir e insana buscar o sol de primavera.

01/02/2017

DESPEDIDA

É difícil dizer adeus baby!

A noite já tomou conta de tudo.

Carros ruidosos aceleram e soltam no ar baforadas de fumaça.

Bêbados, dizem asneiras nas esquinas e copos enchem-se pela última vez.

Sinto que tudo se misturou e não consigo mais conciliar minhas próprias ideias.

Imagino o que as pessoas, o que talvez este mundo ordinário gostaria que eu pensasse, mas ao mesmo tempo, quero que todos os estatutos ridículos se explodam.

Então, percebo que preciso intensamente de você. Sempre foi você que me disse ao longo do tempo, tudo o que tinha que fazer e fiz, e sim, me acostumei a isto.

Estou vazia, desprovida de minhas próprias ideias, de meus próprios desejos. Tudo é confuso e embaralhado neste emaranhado de sensações. Me transformei senão em um objeto, seu objeto de estima que você fez questão de manter longe de tudo e hoje tornei-me o ser inanimado que você sempre desejou.

Hoje, o ser inanimado teve seu lampejo de ousadia. Hoje o ser inanimado está pronto para dizer adeus.

A noite se esvai. Lá fora os neons ainda brilham, os carros ainda passam apressados, pessoas ainda trocam confidências de fim de noite depois das bebedeiras e o mundo continua caminhando para o nada.

Hoje também me sinto o nada, talvez um pequenino inseto lutando pela sobrevivência, mas, um inseto que permanecerá lutando, porque as batalhas são muitas e hoje eu venci a minha.

Solange Biolcatti (meados dos anos 90).

MARCO ANTONIO

Anuncia-se uma nova e estonteante manhã.

O calor do sol chega trazendo uma barulhenta sinfonia de pássaros.

O murmurar do vento por entre as copas das árvores, refresca um pouco o tempo que desde o alvorecer já se anunciava como um dia típico de verão.

Este cenário alegre despertou aquela alma pequenina naquela manhã e em seu coração cheio de ternura e sabedoria assistia a tudo como a uma fenomenal descoberta.

A beleza contida em cada coisa que o cercava era tão nítida, que a todos encantava.

Ele podia  entender que a essência da vida era muito mais que caprichos infantis . Talvez no fundo pressentisse que não teria tantos anos de vida, porém, sentia-se profundamente ligado ao processo iluminado que traduz o ato de viver.

Sentia-se conectado ao amor. Amor que sentiu muito antes do ato da concepção, amor que sempre existiu no tempo da eternidade, todas as coisas tinham um outro sentido para ele.

Por certo não poderia entender certos acontecimentos do mundo adulto que ainda demonstravam tanta infantilidade, tanta arrogância, tanta prepotência, talvez este mundo não se encaixasse naquilo que realmente fazia sentido para ele.

Nesta manhã em especial, sentia-se uno com o mesmo universo que aqui o colocara, via a natureza com muito mais cores, o sol no esplendor de seu brilho. Um profundo sentimento de amor universal invadiu aquele pequenino ser e sentiu-se livre e uno.

Voou. Não apenas o voo da imaginação, este que nos faz acreditar ser possível tantos devaneios, mas o voo rumo ao absoluto.

Ali, naquela cálida manhã, resplandescente de verão, fez seu único voo em direção ao infinito, e, se estivermos sensíveis,  será possível sentirmos esta brisa leve que passa por nós e se projeta rumo ao céu espetacular onde tudo o que podemos ver agora são as incontáveis estrelas.

Com amor!

Sua irmã.

Solange Biolcatti