SEMEAR E COLHER

A sensibilidade é um exercício de perceber no outro algo que que nos incomoda e que gostaríamos que percebessem em nós.

Dentro de nós, seres racionais e emocionais, habitam as várias portas que acessam caminhos de evolução, por outro lado, habitam também, os quartos escuros, aqueles que não queremos ver, que fingimos para nós mesmos que não existem, que nos trazem vergonha ou espanto.

Quando destilamos a outrem nossos venenos mentais, na realidade, estamos dando ênfase ao pior de nossa espécie, estamos plantando as sementes que pela causa e efeito hão de germinar e em algum ponto da trajetória e inevitavelmente faremos a colheita.

Se pelo desafio deste exercício diário que é viver, pudermos ir substituindo mágoas, ódio, ira, inveja, ressentimentos por um olhar mais amplo, e ,buscar no fundo de cada um de nós a centelha viva da compaixão, as sementes que serão plantadas e colhidas ao longo da caminhada não só afetarão positivamente nosso dia-a-dia, mas também perceberemos que o mundo a nossa volta poderá se transformar em um verdadeiro aprendizado e crescimento neste processo de evolução.

A vida só faz sentido e é capaz de aplacar o vazio da existência, se pouco a pouco começarmos a enxergar neste planeta um oásis de fraternidade e compaixão, e este oásis só vai acontecer de fato quando decidirmos que ele precisa começar dentro de cada um de nós.

04/02/2017.

Amanhecer dos corpos

2016-07-13-17-34-13Pela manhã o corpo lentamente desperta e preguiçosamente sente os primeiros raios da manhã. Atenta-se para o momento tristonho de ter que separar-se do outro que estava a seu lado.

Ainda, sem obedecer direito, procura entre o olhar espremido, forçar a visão para a hora da partida.

Percebe como que por instinto, a aproximação do outro, e ali, condensa toda  a vontade de ficar e esforça-se por balbuciar algumas palavras.

Em vão nutre a esperança de eternizar o momento e sem forças rende-se aceitando então a despedida. Posto que tudo é esta chama ardente, explode em múltiplas faíscas sentindo o toque das mãos e das bocas unidas e fica ali em êxtase buscando sorver cada minuto daquele momento eterno.

Sente então que tudo se funde, e que o amor se expressa nesta dança inexplicável de duas almas que se encontraram muito antes dali e então sorri.

02/02/17.

A VOCE SAMPA, POUCAS PALAVRAS

cronicas, Chaminés empesteiam teu céu de fumaças fedorentas.

Esquinas enchem-se do lixo que as pessoas insistem em abandonar pela cidade.

Mendigos, disputam na metrópole uma fresta tranquila em meio ao caos da sinfonia de buzinas.

Seus moradores disperços, projetam-se em mil estranhas figuras, invadindo avenidas e ruas.

Poucos são aqueles que percebem sua beleza quase perdida, pois há sempre muita pressa de se chegar não se sabe onde.

Fugir, talvez?

Impossível. Algo de inexplicável, nos une a você, cidade insandecida, nos prende, ao teu passado glorioso, as estrelas que tentamos encontrar em meio ao caos e a pressa das pessoas.

O teu povo é mundo.

Você é pátria.

No coração de todos nós teu sangue se desfaz, denso e punjante.

Por mais que te desprezem ou tentem fazer de ti o lixo de nossas próprias obras, não poderão apagar a tua força nem de nós o sentimento de sermos os teus filhos paulistanos.

Solange Biolcatti – Pelo dia 25/01.

TEMPOS MODERNOS

Tempos frenéticos.

Mundo hermético.

Sorriso sintético.

Relações diluídas no conforto das telas protetoras dos computadores, laptops, tablets, celulares onde a exposição é velada e os sentimentos expostos restrimgem-se a emoticons e pequenos sinais de like’s.

Tribos divididas na grande aldeia Terra.

Nunca estivémos tão próximos e tão milimetricamente separados por gostos, tendências, expectativas.

Nunca o mundo esteve tão conectado, informado, engajado, personalizado mas essencialmente vazio.

Rostos sorridentes e takes deslumbrantes invadem as redes sociais, mas,  pessoas sufocadas invadem terapeutas em busca de lenitivos para alcançar a tão sonhada felicidade.

Do que realmente precisamos?

O que buscamos?

O que é verdadeiramente nossa essência?

O que ou quem sou eu?

Talvez este seja o exercício de uma vida inteira. Buscar o que verdadeiramente possa preencher as lacunas desta experiência fascinante e desafiante que é o ato de viver.

Talvez o que realmente possa completar nossa finitude, seja um sorriso próximo e um brilho despretencioso do olhar.

Talvez nesta dança da vida, pessoas reais em um mundo real tragam aquilo que seja novamente o sal da terra.

Solange Biolcatti – 30/01/2017.

DESPEDIDA

É difícil dizer adeus baby!

A noite já tomou conta de tudo.

Carros ruidosos aceleram e soltam no ar baforadas de fumaça.

Bêbados, dizem asneiras nas esquinas e copos enchem-se pela última vez.

Sinto que tudo se misturou e não consigo mais conciliar minhas próprias ideias.

Imagino o que as pessoas, o que talvez este mundo ordinário gostaria que eu pensasse, mas ao mesmo tempo, quero que todos os estatutos ridículos se explodam.

Então, percebo que preciso intensamente de você. Sempre foi você que me disse ao longo do tempo, tudo o que tinha que fazer e fiz, e sim, me acostumei a isto.

Estou vazia, desprovida de minhas próprias ideias, de meus próprios desejos. Tudo é confuso e embaralhado neste emaranhado de sensações. Me transformei senão em um objeto, seu objeto de estima que você fez questão de manter longe de tudo e hoje tornei-me o ser inanimado que você sempre desejou.

Hoje, o ser inanimado teve seu lampejo de ousadia. Hoje o ser inanimado está pronto para dizer adeus.

A noite se esvai. Lá fora os neons ainda brilham, os carros ainda passam apressados, pessoas ainda trocam confidências de fim de noite depois das bebedeiras e o mundo continua caminhando para o nada.

Hoje também me sinto o nada, talvez um pequenino inseto lutando pela sobrevivência, mas, um inseto que permanecerá lutando, porque as batalhas são muitas e hoje eu venci a minha.

Solange Biolcatti (meados dos anos 90).

MARCO ANTONIO

Anuncia-se uma nova e estonteante manhã.

O calor do sol chega trazendo uma barulhenta sinfonia de pássaros.

O murmurar do vento por entre as copas das árvores, refresca um pouco o tempo que desde o alvorecer já se anunciava como um dia típico de verão.

Este cenário alegre despertou aquela alma pequenina naquela manhã e em seu coração cheio de ternura e sabedoria assistia a tudo como a uma fenomenal descoberta.

A beleza contida em cada coisa que o cercava era tão nítida, que a todos encantava.

Ele podia  entender que a essência da vida era muito mais que caprichos infantis . Talvez no fundo pressentisse que não teria tantos anos de vida, porém, sentia-se profundamente ligado ao processo iluminado que traduz o ato de viver.

Sentia-se conectado ao amor. Amor que sentiu muito antes do ato da concepção, amor que sempre existiu no tempo da eternidade, todas as coisas tinham um outro sentido para ele.

Por certo não poderia entender certos acontecimentos do mundo adulto que ainda demonstravam tanta infantilidade, tanta arrogância, tanta prepotência, talvez este mundo não se encaixasse naquilo que realmente fazia sentido para ele.

Nesta manhã em especial, sentia-se uno com o mesmo universo que aqui o colocara, via a natureza com muito mais cores, o sol no esplendor de seu brilho. Um profundo sentimento de amor universal invadiu aquele pequenino ser e sentiu-se livre e uno.

Voou. Não apenas o voo da imaginação, este que nos faz acreditar ser possível tantos devaneios, mas o voo rumo ao absoluto.

Ali, naquela cálida manhã, resplandescente de verão, fez seu único voo em direção ao infinito, e, se estivermos sensíveis,  será possível sentirmos esta brisa leve que passa por nós e se projeta rumo ao céu espetacular onde tudo o que podemos ver agora são as incontáveis estrelas.

Com amor!

Sua irmã.

Solange Biolcatti

Sede de pensamento

Posto que é chama, esta dor que inflama,

Este átomo de tempo em que tudo transforma,

Esta sede do pensamento,

Do sentimento,

Daquele primeiro momento.

Somos o instante que de relance se encontra por entre esquinas e que é capaz de novamente derreter o gelo e descobrir singela a primeira flor da primavera.

Solange Biolcatti – 16/05/2015 – 12:40 hs